sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

SOBRE ESSA RAÇA

Os actores são como os dragões, são como os unicórnios, são como os centauros, são como as sereias, são como as feiticeiras, são como os monstros dentro do armário, são como o Godot, são como os gambuzinos, são como os papões: só existem enquanto alguém acreditar neles. Se mais ninguém acreditar, eles deixam de existir. E como apesar de tudo não são como as fadas, não vale a pena bater as palmas para que ressuscitem. Temos que acreditar primeiro.

I DO BELIEVE IN ACTORS


posted by Peter Pan

AUTO-O QUE HÁ-DE VIR

SE NUM PASSADO PRÓXIMO
VIESSE A DANÇAR UM DIA
E CONQUISTASSE ALGUÉM OU ALGO COM CERTA ATITUDE
TALVEZ MUDASSE DE RITMO
E VIVESSE NUMA DANÇA MELHOR.

AUTO-ISTO

NÃO PERDEU A CONSCIÊNCIA
DO QUE QUER FAZER
APENAS O FAZ COM CALMA E VIVE COM TODO O SENTIMENTO


NÃO FAZ DE PROPÓSITO
PARA QUE ALGO CORRA MAL
APENAS NÃO ENSAIOU O SUFICIENTE


NÃO PERDEU O SORRISO
APENAS O GUARDOU NO BOLSO
POIS ASSIM TORNA-SE RARO E ESPECIAL


E TAMBÉM NÃO ESQUECEU AS CORES
APENAS AS TRANCOU
PARA SE TORNAREM MAIS ALEGRES QUANDO LIBERTAS


NÃO FUGIU À SAUDADE
CONTINUA A SENTI-LA
MAS NÃO SE DÁ AO TRABALHO DE A DEMONSTRAR

APENAS NÃO SE QUER LEMBRAR QUE ELA EXISTE.

SUICÍDIO POR ASSASSINATO

ARRAMQUEM-LHE OS OLHOS
E TENTEM VÊ-LO POR DENTRO:
FUGIU-LHE A VIDA
E A VONTADE DE VIVER


VOLTOU-SE PARA A DIFERENÇA
E VONTADE DE SUICÍDIO
O TAL CEGO DE QUE FALEI


MAS MATOU-SE COM UM ASSASSINO
QUE LHE ROUBOU ALGO
QUE JULGAVA JÁ NÃO PODER SER ROUBADO


E ARREPENDEU-SE NO INFERNO
MESMO SEM VER O QUE LHE TINHA ACONTECIDO


MATOU-SE DA PRÓPRIA CURA.

ASTERISCOS

NAQUELE DIA PENSEI
NA LOUCURA JÁ CURADA
DAS PESSOAS NORMAIS...


NAQUELE DIA PENSEI
QUANTO EU ERA LOUCO
POR FAZER APENAS COISAS NORMAIS


NA LOUCURA TOMEI
ALGO DE NOVO E LOUCO
NA DOENÇA JÁ CURADA
DE UMA LOUCURA PASSADA
DA PESSOA NORMAL
QUE JÁ NÃO SOU.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

RETRATO DE FAMÍLIA


No mundo da fotografia a área dos retratos é uma das mais problemáticas. Os retratos estão sempre relacionados com uma certa ambiguidade, que resulta precisamente daquilo ou de quem está a ser fotografado. Apelidar uma fotografia de “retrato” sugere desde logo o determinar de uma identidade, o revelar algo de mais íntimo e mais pessoal que transpira da imagem fotografada. No entanto, apesar de muito do retrato fotográfico se concentrar no rosto da pessoa, considerando ser essa a parte que melhor fala do seu carácter, muitas vezes o fotografar de um outro elemento qualquer (apenas uma parte do corpo, um objecto pessoal, uma paisagem que se relacione com o sujeito, um monumento) são coisas que podem dizer muito mais sobre o sujeito retratado do que a estampa da sua face.


O meu Retrato de Família é uma fotografia de um jazigo familiar. Foi tirada no cemitério de Tomar no dia 24 de Dezembro de 2008, por volta das 16h00, quando achei que a luz estaria mais adequada ao meu propósito. O facto de este retrato de família ser a fotografia de um jazigo não é obviamente casual, faz uma referência a negrito da relação que existe entre fotografia e morte, desde a pré-história desta prática. Inicialmente, por causa do tempo de exposição necessário para a captação de uma imagem, as primeiras fotografias eram tiradas a pessoas já mortas. Os retratos aconteciam apenas quando os indivíduos morriam, garantindo assim (pela imobilidade do sujeito) a qualidade do retrato. Neste jazigo não encontrei qualquer referência ao tempo da sua construção, mas pelo seu aspecto posso supor que pode mesmo ser tão antigo quanto a própria pratica da fotografia.


Esta foto faz esta ligação do passado da fotografia com a actualidade: o tema dos mortos, porque só assim era possível o retrato, e os mortos fotografados hoje e em segundos por uma alta tecnologia que até permite ver a imagem antes de imprimir – a minha máquina digital. E o facto de ter captado, nesta família unida, não os seus rostos como antes seria prática, mas aquilo que de outro modo melhor a identifica: a morte. Estão todos unidos ali, pessoas de caracteres muito diversos uns dos outros, mas partilhando todos da mesma característica: a de não estarem vivos. Podemos até ironicamente pensar que esta será a única fotografia existente desta família junta, não só pela suposta idade do jazigo, que pode ser mesmo mais antigo do que o hábito fotográfico, mas também porque, por ser um jazigo de família, que tem como função guardar restos mortais de várias pessoas do mesmo sangue ao longo de tempos diferentes, ali se encontram juntos num mesmo sítio e num mesmo tempo, encontro esse que em vida não seria possível.


A fotografia é a habilidade de captar um momento para sempre, um momento que fotografado, está já morto, pois é passado. É um memento mori. Nesta fotografia a morte acontece então em dois sentidos, matando um momento dos mortos, pretendendo que se relembre a morte das mortes dos mortos. Se as fotografias são uma espécie de tentativa de ressuscitar momentos que são já passado, que são já mortos, com esta fotografia mais não fazemos do que ressuscitar a morte dos mortos. Quando fotografamos matamos o momento, e o sujeito fotografado. Com esta imagem conseguimos um método eficaz de matar o que já está morto, temos o prazer de matar quantas vezes quisermos estas pessoas sem que pese sobre a nossa consciência o homicídio: as vítimas já estavam mortas.


Ao fotografar este jazigo não posso negar o prazer que tive, advinda da sensação de estar a cometer um acto ilícito (não só a de matar mortos), de estar a fotografar um motivo que eticamente não é suposto fotografar. Foi com uma certa vergonha que consegui esta fotografia, não deixei de ser importunada por velhinhas que lavavam campas e coveiros que abriam um buraco ao lado, que me questionavam porque andava eu a fotografar num cemitério. E eu sem coragem de responder o que quer que fosse, “por respeito aos mortos”… De facto, sente-se que existe algo de errado ao apreciarmos uma fotografia como esta, pois ninguém tem o direito de perscrutar, de fazer turismo na morte de alguém que nem sequer se conhece. Nesta imagem invadimos mais do que uma paisagem tétrica, penetramos em almas. É uma espécie de violação de privacidade, trago um elemento biográfico, pessoal de uma história familiar para um espaço público, exponho aqui o término familiar de sujeitos com quem nunca me cruzei. A morte é só por si tema delicado, eticamente muito protegido por aqueles a quem diz respeito a morte de alguém. Esta fotografia é portanto prova de que, a nível fotográfico, a privacidade desapareceu, não existe qualquer objecto impossibilitado de ser fotografado.


Ao apreciarmos esta fotografia não conseguimos desligar dela a sensação de sinistro. E não deixa no entanto de agradar, o que prova o nosso gosto sombrio. Por ser uma fotografia de um jazigo pode motivar perguntas do género: porque é que isto foi fotografado? Qual o interesse do fotógrafo neste jazigo em particular? O que motivou o fotógrafo a deslocar-se a um cemitério e fotografar os mortos? Quando nos desprendemos das intenções do fotógrafo e consideramos o sujeito fotografado, as perguntas serão: que idade tem o jazigo? Quantas pessoas encerra? Terão morrido de quê? Ainda existirão familiares vivos? Será que alguém cá vem frequentemente? Pelas questões que levanta, que são prova do interesse que em nós desperta, esta fotografia ganha uma dimensão também ela relacionada com esta prática: a beleza do sublime, que se associa ao aspecto melancólico da fotografia.


A fotografia evoca melancolia através das suas imagens e é por isto que o objecto da fotografia se torna atractivo. Por ser uma fotografia de um jazigo, esta é sem dúvida uma foto romântica, e do romantismo tétrico não se dissocia a melancolia. O gosto romântico caracteriza-se pela estimação do decrépito, da morte, do místico e do sombrio. Não conseguimos achar esta fotografia horrível porque a fotografia só por si embeleza o que quer que seja fotografado.


A fotografia concede beleza à mais sinistra das coisas, torna coisas feias, ou que são vergonhosas de fotografar, como mortos, campas e jazigos, em algo sublime, belo. Encontramos sempre beleza nas fotografias: sendo o tema da morte (um retrato de família ou um retrato da morte?) esta fotografia não é excepção. A imagem lembra os cenários românticos pelo o jogo das sombras, a presença prenhe de simbolismo da cruz, a luz de fim de tarde, a imponência e dureza da pedra, evocando essa beleza romântica que nos advém do século XIX.


Normalmente, quando pensamos em fotografar alguém pensamos em fotografar momentos felizes, mas a banalização do acto fotográfico permite a exploração de inúmeros temas, que ao primeiro pensamento o senso comum não procura. Este retrato familiar, por ser a imagem de um jazigo, representa necessariamente momentos de tristeza na vida de alguém. Esta fotografia suporta uma grande quantidade de reflexões a propósito da biografia desta família, do próprio sujeito fotografado (um jazigo como retrato de uma família) da relação entre o fotógrafo e o acto de fotografar um jazigo, e com a filosofia existente na História da Fotografia.


A fotografia está relacionada com um momento que nunca mais se repete. Mas se atendermos a esta fotografia e à sua relação com o tempo, será que esta tertúlia familiar diferirá muito ao longo dos próximos anos? Para esta família, os momentos são basicamente iguais. Qualquer pessoa poderá repetir esta fotografia de família… No máximo, talvez exista alguma animação com umas flores novas ou mais um membro que chega para se juntar ao retrato.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

UM RASPANETE AMENINADO

THAT NIGHT FOLLOWS THE DAY
O que poderão ter a dizer-nos um grupo de fedelhos sobre a idade adulta? O que têm a ensinar-nos sobre o modo como os ensinamos? Será que vêem nas coisas algo mais para além de nós? Serão capazes de ter uma atitude tão eloquente que nos faça reflectir sobre nós mesmos, sobre aquilo que julgamos saber acerca do mundo, sobre a nossa vida, sobre o modo como nela nos relacionamos com aqueles que ainda há tão pouco tempo a ela chegaram? Etchells, um dos elementos do conceituado grupo artístico inglês Forced Entertainment, propõe que tiremos as nossas conclusões a propósito disto com o espectáculo que fez viajar até Portugal: That Night Follows Day.


Enquanto se aguarda que toda a gente se sente na sala de espectáculo, ouvimos em fundo sonoro crianças a brincar, sem no entanto as vermos. O palco foi transformado num ginásio escolar: espaldares ao fundo da cena, no chão as fitas coloridas que marcam os campos de jogo, ao cimo um grande quadro de escola primária onde serão projectadas as legendas em português (o espectáculo acontece em neerlandês). Há cadeiras espalhadas. Estamos no espaço de recreio. É aqui que acontece a acção. Subitamente, as vozes de crianças a que já estávamos habituados, calam-se. Entram os intérpretes: 16 indivíduos, com pouco mais de metro e meio alinham-se à boca de cena com ar sereno de quem sabe o que está a fazer. Estes pigmeus, crianças belgas entre os oito e os doze anos, não deixavam ainda suspeitar o raspanete que nos pregariam, a nós, os adultos, por sermos adultos. A sua bem-comportada organização de meninos de coro escondia ainda o conteúdo daquilo que nos viriam a dizer.


Começa então o sermão: com um discurso que se inicia em uníssono, o grupo de crianças desencadeia o rol de afirmações (que rapidamente passam a acusações) das coisas que os adultos lhes dizem, sobre como fazer, sobre porque fazer, sobre tudo e sobre nada: “Vocês alimentam-nos. Dão-nos banho. Vestem-nos. Cantam para nós. Observam-nos quando estamos a dormir. Fazem-nos promessas de que acham que não nos vamos lembrar. Contam-nos histórias com final feliz e histórias sem final feliz e histórias com um final que nem sequer chega a ser um final. Explicam-nos o que é o amor. Explicam-nos as diferentes causas da doença e as diferentes causas da guerra. Sussurram quando acham que não devemos ouvir.”


Todo o texto utilizado pelas crianças é um composto de frases soltas, sem uma aparente relação entre elas a não ser o facto de que todas se referirem sempre à relação que os adultos têm com as crianças. A estrutura do texto é sempre a mesma ao longo de todo o espectáculo, e as crianças expressam-no ora em momentos corais, ora a solo, tomando cada criança uma consideração sua sobre “os maiores”. O todo do texto constitui uma descrição infantilmente séria do modo como os adultos modelam, enquadram e definem o mundo em que eles habitam, das várias maneiras segundo as quais o mundo das crianças é determinado pelo o dos adultos.


A relação entre adultos e crianças articula-se através do texto. O mundo de que nos falam as crianças não é o mundo delas, é o mundo adulto que lhes queremos impingir. Isto justifica que as atitudes das crianças em palco sejam a de quem está francamente chateado, chegando por vezes a ser agressivo. As crianças dirigem-se directamente ao público, que sabe que é adulto, “Vocês, vocês”! Em grupo ou individualmente, expressando a sua indignação, revolta, ou incompreensão através das suas qualidades vocais, estas crianças não nos deixam esquecer que já atingimos a maioridade e que nos relacionamos com elas de modos que chegam mesmo a ser néscias. A atitude das crianças no espaço em que se encontram não deixa de ser paradoxal: estão num recreio, seria esperado que andassem aos saltos, a brincar, a jogar, a divertir-se. O recreio é talvez o sítio no mundo infantil onde podem ser totalmente crianças, sem que grandes constrangimentos lhes sejam impostos, especialmente pelos adultos. Mas em vez de aproveitarem esse espaço de diversão, este grupo de crianças surpreende-nos com considerações sérias numa atitude crescida, numa organização e serenidade que intriga o espectador.


As poucas variações cénicas do espectáculo (as disposições das crianças alteram apenas entre boca de cena e fundo de cena, numa organização linear) estendem o tempo de presença perante os adultos (entenda-se o público) fazendo com que aquilo que nos têm a dizer pareça repetitivo e interminável, tal como os raspanetes que em miúdos recebemos. Apesar de haver um momento de caos, que mais não é do que um verdadeiro momento de recreio em que as crianças são crianças, deixando a pose de responsabilidade para se divertirem “desorganizadamente”, depressa voltam ao composto da cena, para fechar o espectáculo do mesmo modo como o tinham iniciado: à boca de cena, sempre falando sobre nós a propósito deles. “Temos de nos ir arranjar”, é a última frase da peça, reservando assim talvez uma impossibilidade da nossa parte de conseguirmos considerar as crianças como algo mais do que um receptor de informações e ordens, um barro que insistimos em moldar segundo as nossas considerações.


Não é só pelo conteúdo do texto, ou pelo modo como este foi explorado pelas crianças e lançado sobre o espectador, que este espectáculo pode ser considerado um raspanete: estas crianças, excelentemente dirigidas por Tim Etchells, dão uma grande lição a qualquer um que ponha em causa a capacidade interpretativa de qualquer miúdo, de ser capaz de estar completamente sozinho (entenda-se sem nenhum adulto) em palco ao longo de mais de uma hora, de decorar uma sequência de texto extensa, movimentações e atitudes específicas e, claro está, suportar o olhar de um público pouco habituado a ver um grupo de crianças a actuar fora dos recitais escolares ou dos saraus familiares.


Estas crianças não brincam aos teatros, fazem teatro, com uma veracidade e qualidade de meter inveja a muitos grupos profissionais.

domingo, 16 de novembro de 2008

"O QUE É QUE SE PASSA COM A DOÇURA DO MUNDO?"


A peça encenada por Jorge Silva, a Canção do Vale (um texto genial do sul-africano Athol Fugard) fala-nos da relação entre um agricultor ex-combatente da segunda guerra mundial e a sua neta Verónica. A mãe e a avó de Verónica morreram, o avô educa-a desde bébé. Uma luz sóbria ilumina o pequeno espaço onde a intriga se passa. O cenário é simples evocando um ambiente rural: mesas e bancos de madeira, uma corda que serve de estendal, bacias metálicas ou de barro, roupas russas. Tudo tem o tom da terra, esse sítio que as personagens tanto amam.O ambiente parece desmazelado, e isto justifica-se porque não são as aparências que são ali o mais importante. São os sonhos. Mais do que um conflito de gerações, é um conflito de realizaçoes de sonhos que levará a que a doçura existente nesta relação se vá amargando.

A história é-nos contada pelo narrador. O narrador e o velho Abraam habitam num mesmo actor, José Peixoto, que altera entre os dois registosos discursivos sem prejuízo da coerência de cada uma das personagens. Com o narrador entramos no domínio do contador de histórias: a luz baixa, o actor aproxima-se do público assumindo a presença deste e é neste ambiente intimista que nos conta o que se passa naquela relação de avô e neta, integrando-se e figurando também na história que vai contando. Abraam cultiva a sua terra com paixão e dedicação, enterrando nelas as suas sementes de abóbora. Na sua neta deposita o sonho de a ver a trabalhar perto de si, numa casa senhorial, ganhando o suficiente para se sustentar, que é, no seu entender, tudo o que é necessário para se ser feliz. Mas o horizonte de Verónica vai para além dos montes que vê daquele vale: o que mais gosta de fazer é de cantar. O espectador é brindado com as cantigas de Verónica, numa interpretação de Carla Galvão que é irrepreensível. Em cima de um caixote de frutas sente-se no palco, o folowspot sobre a sua figura ajudam-na a ser a cantora que sonha ser. A voz da actriz é tão envolvente que o espectador lamentará a brevidade das canções. O conteúdo das letras é simples, mas sempre dedicado ao mundo em que a personagem vive, a terrinha de que nunca saiu.

Avô e neta têm destinos divergentes, resultado dos seus sonhos. Partilham do mesmo afecto pela terra e do amor um pelo outro, mas a doçura com que se inicia a peça vai-se detriorando. O velho não suporta a ideia de ser abandonado pela neta, de esta não respeitar a vida que para esta tinha sonhado. A tensão cresce, da relação de amor evidencia-se a relação de subordinação. Abraam exerce sobre a neta uma relação de propriedade, ao tentar proibi-la de cantar e de partir. A doçura daquela relação perde-se completamente quando o actor adquire um registo agressivo, cobrando da sua neta toda a vida de trabalho que tivera para a poder alimentar. Mas Verónica não cede. A aparente ingenuidade da personagem ganha uma força que não se suspeitava. Verónica leva o seu sonho até ao fim e parte para Joanesburgo para poder levar a sua música ao mundo. São dois egos em confronto, dois sonhos por concretizar. Para Verónica a música que aquele vale ecoa não chega, ela tem que ir mais além. Para concretizar o seu sonho tem que desrespeitar o sonho que o seu avô tinha nela, para ela. Com a promessa de realização de um sonho e a falência de outro é assim que fecha a história que nos trouxera o narrador, o mesmo velho que fica acompanhado da sua solidão. Não foi apenas um sonho que foi perdido, foi uma relação.

Afinal, não é a doçura do mundo que vai mal, é a dos sonhos.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

MAIS CÃES QUE HOMENS, É O QUE TÊM QUE SER OS AMIGOS

"Consegues envolver-te numa cena de amor, esqueceres-te do que estás a fazer e amar alguém ou alguma coisa por 50 minutos numa peça de teatro, 90 minutos num filme, três minutos numa cena e 30 segundos ou aqueles 10 segundos do final que parecem uma eternidade...

Paixões de 5 minutos é tão bom... Quando te cruzas com alguém na rua e pensas: olho para trás? Vou falar com ele? Ou no meio de algum sítio onde tens uma pita a dizer-te "vai lá!". Nunca te apaixonaste por uma personagem de um filme? Se houver aí no mundo um médico como o Dr.House eu quero-o... enfim... E um Hamlet, não sei se aguentava mas gostava... Bem tudo isto para dizer que pode ser sim como nos filmes, para sempre enquanto durar e por muito ou pouco tempo que seja, que importa? Tens uma paixão que supera isso e podes sempre apanhar o próximo avião para a Califórnia! Daquele lado do mundo os sonhos realizam-se."

PACOTES DE CARINHO?


"UM DIA BEIJO-TE A MEIO DE UMA FRASE"


Um dia beijo-te a meio de uma frase... Imagine-se! Ser asim interrompida, a meio de um raciocínio, com um beijo!!!



UMA BICA POR FAVOR. Pago com um euro, recebo cinquenta cêntimos de troco e a promessa de um beijo que me interrompa uma frase. Acho muito curioso a Nicola ter estampado nos seus pacotinhos de açúcar para o café frases como esta. "Um dia beijo-te a meio de uma frase". Dei por mim a divagar, a viajar na minha melancolia, a pensar em alguém que me beijasse a meio de uma frase... Sou obrigada a sentir-me infeliz... tive de pagar para ouvir (e pior, ouvir de mim mesma) que um dia serei beijada a meio de uma frase! Dizem que o açúcar acalma as carências do coração...E deixei o café ficar frio.

Lá estou eu a pensar! Outro café por favor! Que este ficou frio... Lá vem ele... "Um dia faço de ti a pessoa mais feliz do mundo" dizia agora o pacotinho...




POSSO APAIXONAR-ME POR UM PACOTE DE AÇÚCAR??

DOLOREM IPSUM

DOLOREM IPSUM, latim para "a dor em si mesma". Texto cego é um texto que não vê. E o que os olhos não vêem o corção não sente. À excepção da dor em si mesma, a única coisa que o texto pode sentir no vazio que representa,é aquela que nele existe em sentido figurado. Texto cego é um texto que não vê.



Mas, como diz Saint-Éxupéry, o que nos vale é que o essencial é invisível para os olhos.

ETIAM EGET LIGULA

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

UM E-MAIL PERTURBANTE QUANDO ME PARTILHEI COM ALGUÉM

Muito surpreendida fiquei quando, como resposta a uma conversa de desabafo com o meu saco roto (um grande grande amigo) sobre problemas existenciais e passionais ele me envia um "e-mail AVISO", dizendo qualquer coisa do género "tem cuidado, estás a aproximar-te da Milady do Senhor Cesário"

Deslumbramentos

Milady, é perigoso contemplá-la
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, senguindo-lhes as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!…

Em si tudo me atrai como um tesoiro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina…
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!…

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e música no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

E enfim prossiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como a um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão-de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos - as rainhas!

MAS PORQUÊ! COMO É QUE POSSO TER ALGO A VER COM ESTA SENHORA! SE ELA É TÃO ALTIVA E TÃO CAPAZ DE SER SÓZINHA!

SACO ROMPIDO: DAS COISAS QUE LÁ SE PÕEM E QUE NUNCA SE GUARDAM

Estou neste momento a inaugurar-me num meio que não faço a mínima ideia como é que funciona.... para falar a verdade sempre pensei num blog como algo extremamente egocêntrico, como um acto de histeria que grita "olha para mim! quero partilhar-me!". Enfim, o que é facto é que comecei a ser leitora assídua de alguns blogs, e comecei a achar o fenómeno de facto muito interessante. E apercebi-me que também eu sofro dessa ânsia, dessa histeria de querer partilhar-me. E como não há melhor que um saco roto para guardar as coisas que no íntimo não queremos verdadeiramente que fiquem guardadas mas que 'up's! pretendemos que mais alguém conheça além de nós...nada melhor que um saco rompido.