domingo, 16 de novembro de 2008

"O QUE É QUE SE PASSA COM A DOÇURA DO MUNDO?"


A peça encenada por Jorge Silva, a Canção do Vale (um texto genial do sul-africano Athol Fugard) fala-nos da relação entre um agricultor ex-combatente da segunda guerra mundial e a sua neta Verónica. A mãe e a avó de Verónica morreram, o avô educa-a desde bébé. Uma luz sóbria ilumina o pequeno espaço onde a intriga se passa. O cenário é simples evocando um ambiente rural: mesas e bancos de madeira, uma corda que serve de estendal, bacias metálicas ou de barro, roupas russas. Tudo tem o tom da terra, esse sítio que as personagens tanto amam.O ambiente parece desmazelado, e isto justifica-se porque não são as aparências que são ali o mais importante. São os sonhos. Mais do que um conflito de gerações, é um conflito de realizaçoes de sonhos que levará a que a doçura existente nesta relação se vá amargando.

A história é-nos contada pelo narrador. O narrador e o velho Abraam habitam num mesmo actor, José Peixoto, que altera entre os dois registosos discursivos sem prejuízo da coerência de cada uma das personagens. Com o narrador entramos no domínio do contador de histórias: a luz baixa, o actor aproxima-se do público assumindo a presença deste e é neste ambiente intimista que nos conta o que se passa naquela relação de avô e neta, integrando-se e figurando também na história que vai contando. Abraam cultiva a sua terra com paixão e dedicação, enterrando nelas as suas sementes de abóbora. Na sua neta deposita o sonho de a ver a trabalhar perto de si, numa casa senhorial, ganhando o suficiente para se sustentar, que é, no seu entender, tudo o que é necessário para se ser feliz. Mas o horizonte de Verónica vai para além dos montes que vê daquele vale: o que mais gosta de fazer é de cantar. O espectador é brindado com as cantigas de Verónica, numa interpretação de Carla Galvão que é irrepreensível. Em cima de um caixote de frutas sente-se no palco, o folowspot sobre a sua figura ajudam-na a ser a cantora que sonha ser. A voz da actriz é tão envolvente que o espectador lamentará a brevidade das canções. O conteúdo das letras é simples, mas sempre dedicado ao mundo em que a personagem vive, a terrinha de que nunca saiu.

Avô e neta têm destinos divergentes, resultado dos seus sonhos. Partilham do mesmo afecto pela terra e do amor um pelo outro, mas a doçura com que se inicia a peça vai-se detriorando. O velho não suporta a ideia de ser abandonado pela neta, de esta não respeitar a vida que para esta tinha sonhado. A tensão cresce, da relação de amor evidencia-se a relação de subordinação. Abraam exerce sobre a neta uma relação de propriedade, ao tentar proibi-la de cantar e de partir. A doçura daquela relação perde-se completamente quando o actor adquire um registo agressivo, cobrando da sua neta toda a vida de trabalho que tivera para a poder alimentar. Mas Verónica não cede. A aparente ingenuidade da personagem ganha uma força que não se suspeitava. Verónica leva o seu sonho até ao fim e parte para Joanesburgo para poder levar a sua música ao mundo. São dois egos em confronto, dois sonhos por concretizar. Para Verónica a música que aquele vale ecoa não chega, ela tem que ir mais além. Para concretizar o seu sonho tem que desrespeitar o sonho que o seu avô tinha nela, para ela. Com a promessa de realização de um sonho e a falência de outro é assim que fecha a história que nos trouxera o narrador, o mesmo velho que fica acompanhado da sua solidão. Não foi apenas um sonho que foi perdido, foi uma relação.

Afinal, não é a doçura do mundo que vai mal, é a dos sonhos.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

MAIS CÃES QUE HOMENS, É O QUE TÊM QUE SER OS AMIGOS

"Consegues envolver-te numa cena de amor, esqueceres-te do que estás a fazer e amar alguém ou alguma coisa por 50 minutos numa peça de teatro, 90 minutos num filme, três minutos numa cena e 30 segundos ou aqueles 10 segundos do final que parecem uma eternidade...

Paixões de 5 minutos é tão bom... Quando te cruzas com alguém na rua e pensas: olho para trás? Vou falar com ele? Ou no meio de algum sítio onde tens uma pita a dizer-te "vai lá!". Nunca te apaixonaste por uma personagem de um filme? Se houver aí no mundo um médico como o Dr.House eu quero-o... enfim... E um Hamlet, não sei se aguentava mas gostava... Bem tudo isto para dizer que pode ser sim como nos filmes, para sempre enquanto durar e por muito ou pouco tempo que seja, que importa? Tens uma paixão que supera isso e podes sempre apanhar o próximo avião para a Califórnia! Daquele lado do mundo os sonhos realizam-se."

PACOTES DE CARINHO?


"UM DIA BEIJO-TE A MEIO DE UMA FRASE"


Um dia beijo-te a meio de uma frase... Imagine-se! Ser asim interrompida, a meio de um raciocínio, com um beijo!!!



UMA BICA POR FAVOR. Pago com um euro, recebo cinquenta cêntimos de troco e a promessa de um beijo que me interrompa uma frase. Acho muito curioso a Nicola ter estampado nos seus pacotinhos de açúcar para o café frases como esta. "Um dia beijo-te a meio de uma frase". Dei por mim a divagar, a viajar na minha melancolia, a pensar em alguém que me beijasse a meio de uma frase... Sou obrigada a sentir-me infeliz... tive de pagar para ouvir (e pior, ouvir de mim mesma) que um dia serei beijada a meio de uma frase! Dizem que o açúcar acalma as carências do coração...E deixei o café ficar frio.

Lá estou eu a pensar! Outro café por favor! Que este ficou frio... Lá vem ele... "Um dia faço de ti a pessoa mais feliz do mundo" dizia agora o pacotinho...




POSSO APAIXONAR-ME POR UM PACOTE DE AÇÚCAR??

DOLOREM IPSUM

DOLOREM IPSUM, latim para "a dor em si mesma". Texto cego é um texto que não vê. E o que os olhos não vêem o corção não sente. À excepção da dor em si mesma, a única coisa que o texto pode sentir no vazio que representa,é aquela que nele existe em sentido figurado. Texto cego é um texto que não vê.



Mas, como diz Saint-Éxupéry, o que nos vale é que o essencial é invisível para os olhos.

ETIAM EGET LIGULA

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

UM E-MAIL PERTURBANTE QUANDO ME PARTILHEI COM ALGUÉM

Muito surpreendida fiquei quando, como resposta a uma conversa de desabafo com o meu saco roto (um grande grande amigo) sobre problemas existenciais e passionais ele me envia um "e-mail AVISO", dizendo qualquer coisa do género "tem cuidado, estás a aproximar-te da Milady do Senhor Cesário"

Deslumbramentos

Milady, é perigoso contemplá-la
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, senguindo-lhes as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!…

Em si tudo me atrai como um tesoiro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina…
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!…

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e música no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

E enfim prossiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como a um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão-de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos - as rainhas!

MAS PORQUÊ! COMO É QUE POSSO TER ALGO A VER COM ESTA SENHORA! SE ELA É TÃO ALTIVA E TÃO CAPAZ DE SER SÓZINHA!

SACO ROMPIDO: DAS COISAS QUE LÁ SE PÕEM E QUE NUNCA SE GUARDAM

Estou neste momento a inaugurar-me num meio que não faço a mínima ideia como é que funciona.... para falar a verdade sempre pensei num blog como algo extremamente egocêntrico, como um acto de histeria que grita "olha para mim! quero partilhar-me!". Enfim, o que é facto é que comecei a ser leitora assídua de alguns blogs, e comecei a achar o fenómeno de facto muito interessante. E apercebi-me que também eu sofro dessa ânsia, dessa histeria de querer partilhar-me. E como não há melhor que um saco roto para guardar as coisas que no íntimo não queremos verdadeiramente que fiquem guardadas mas que 'up's! pretendemos que mais alguém conheça além de nós...nada melhor que um saco rompido.