A peça encenada por Jorge Silva, a Canção do Vale (um texto genial do sul-africano Athol Fugard) fala-nos da relação entre um agricultor ex-combatente da segunda guerra mundial e a sua neta Verónica. A mãe e a avó de Verónica morreram, o avô educa-a desde bébé. Uma luz sóbria ilumina o pequeno espaço onde a intriga se passa. O cenário é simples evocando um ambiente rural: mesas e bancos de madeira, uma corda que serve de estendal, bacias metálicas ou de barro, roupas russas. Tudo tem o tom da terra, esse sítio que as personagens tanto amam.O ambiente parece desmazelado, e isto justifica-se porque não são as aparências que são ali o mais importante. São os sonhos. Mais do que um conflito de gerações, é um conflito de realizaçoes de sonhos que levará a que a doçura existente nesta relação se vá amargando.
A história é-nos contada pelo narrador. O narrador e o velho Abraam habitam num mesmo actor, José Peixoto, que altera entre os dois registosos discursivos sem prejuízo da coerência de cada uma das personagens. Com o narrador entramos no domínio do contador de histórias: a luz baixa, o actor aproxima-se do público assumindo a presença deste e é neste ambiente intimista que nos conta o que se passa naquela relação de avô e neta, integrando-se e figurando também na história que vai contando. Abraam cultiva a sua terra com paixão e dedicação, enterrando nelas as suas sementes de abóbora. Na sua neta deposita o sonho de a ver a trabalhar perto de si, numa casa senhorial, ganhando o suficiente para se sustentar, que é, no seu entender, tudo o que é necessário para se ser feliz. Mas o horizonte de Verónica vai para além dos montes que vê daquele vale: o que mais gosta de fazer é de cantar. O espectador é brindado com as cantigas de Verónica, numa interpretação de Carla Galvão que é irrepreensível. Em cima de um caixote de frutas sente-se no palco, o folowspot sobre a sua figura ajudam-na a ser a cantora que sonha ser. A voz da actriz é tão envolvente que o espectador lamentará a brevidade das canções. O conteúdo das letras é simples, mas sempre dedicado ao mundo em que a personagem vive, a terrinha de que nunca saiu.
Avô e neta têm destinos divergentes, resultado dos seus sonhos. Partilham do mesmo afecto pela terra e do amor um pelo outro, mas a doçura com que se inicia a peça vai-se detriorando. O velho não suporta a ideia de ser abandonado pela neta, de esta não respeitar a vida que para esta tinha sonhado. A tensão cresce, da relação de amor evidencia-se a relação de subordinação. Abraam exerce sobre a neta uma relação de propriedade, ao tentar proibi-la de cantar e de partir. A doçura daquela relação perde-se completamente quando o actor adquire um registo agressivo, cobrando da sua neta toda a vida de trabalho que tivera para a poder alimentar. Mas Verónica não cede. A aparente ingenuidade da personagem ganha uma força que não se suspeitava. Verónica leva o seu sonho até ao fim e parte para Joanesburgo para poder levar a sua música ao mundo. São dois egos em confronto, dois sonhos por concretizar. Para Verónica a música que aquele vale ecoa não chega, ela tem que ir mais além. Para concretizar o seu sonho tem que desrespeitar o sonho que o seu avô tinha nela, para ela. Com a promessa de realização de um sonho e a falência de outro é assim que fecha a história que nos trouxera o narrador, o mesmo velho que fica acompanhado da sua solidão. Não foi apenas um sonho que foi perdido, foi uma relação.
Afinal, não é a doçura do mundo que vai mal, é a dos sonhos.