quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

RETRATO DE FAMÍLIA


No mundo da fotografia a área dos retratos é uma das mais problemáticas. Os retratos estão sempre relacionados com uma certa ambiguidade, que resulta precisamente daquilo ou de quem está a ser fotografado. Apelidar uma fotografia de “retrato” sugere desde logo o determinar de uma identidade, o revelar algo de mais íntimo e mais pessoal que transpira da imagem fotografada. No entanto, apesar de muito do retrato fotográfico se concentrar no rosto da pessoa, considerando ser essa a parte que melhor fala do seu carácter, muitas vezes o fotografar de um outro elemento qualquer (apenas uma parte do corpo, um objecto pessoal, uma paisagem que se relacione com o sujeito, um monumento) são coisas que podem dizer muito mais sobre o sujeito retratado do que a estampa da sua face.


O meu Retrato de Família é uma fotografia de um jazigo familiar. Foi tirada no cemitério de Tomar no dia 24 de Dezembro de 2008, por volta das 16h00, quando achei que a luz estaria mais adequada ao meu propósito. O facto de este retrato de família ser a fotografia de um jazigo não é obviamente casual, faz uma referência a negrito da relação que existe entre fotografia e morte, desde a pré-história desta prática. Inicialmente, por causa do tempo de exposição necessário para a captação de uma imagem, as primeiras fotografias eram tiradas a pessoas já mortas. Os retratos aconteciam apenas quando os indivíduos morriam, garantindo assim (pela imobilidade do sujeito) a qualidade do retrato. Neste jazigo não encontrei qualquer referência ao tempo da sua construção, mas pelo seu aspecto posso supor que pode mesmo ser tão antigo quanto a própria pratica da fotografia.


Esta foto faz esta ligação do passado da fotografia com a actualidade: o tema dos mortos, porque só assim era possível o retrato, e os mortos fotografados hoje e em segundos por uma alta tecnologia que até permite ver a imagem antes de imprimir – a minha máquina digital. E o facto de ter captado, nesta família unida, não os seus rostos como antes seria prática, mas aquilo que de outro modo melhor a identifica: a morte. Estão todos unidos ali, pessoas de caracteres muito diversos uns dos outros, mas partilhando todos da mesma característica: a de não estarem vivos. Podemos até ironicamente pensar que esta será a única fotografia existente desta família junta, não só pela suposta idade do jazigo, que pode ser mesmo mais antigo do que o hábito fotográfico, mas também porque, por ser um jazigo de família, que tem como função guardar restos mortais de várias pessoas do mesmo sangue ao longo de tempos diferentes, ali se encontram juntos num mesmo sítio e num mesmo tempo, encontro esse que em vida não seria possível.


A fotografia é a habilidade de captar um momento para sempre, um momento que fotografado, está já morto, pois é passado. É um memento mori. Nesta fotografia a morte acontece então em dois sentidos, matando um momento dos mortos, pretendendo que se relembre a morte das mortes dos mortos. Se as fotografias são uma espécie de tentativa de ressuscitar momentos que são já passado, que são já mortos, com esta fotografia mais não fazemos do que ressuscitar a morte dos mortos. Quando fotografamos matamos o momento, e o sujeito fotografado. Com esta imagem conseguimos um método eficaz de matar o que já está morto, temos o prazer de matar quantas vezes quisermos estas pessoas sem que pese sobre a nossa consciência o homicídio: as vítimas já estavam mortas.


Ao fotografar este jazigo não posso negar o prazer que tive, advinda da sensação de estar a cometer um acto ilícito (não só a de matar mortos), de estar a fotografar um motivo que eticamente não é suposto fotografar. Foi com uma certa vergonha que consegui esta fotografia, não deixei de ser importunada por velhinhas que lavavam campas e coveiros que abriam um buraco ao lado, que me questionavam porque andava eu a fotografar num cemitério. E eu sem coragem de responder o que quer que fosse, “por respeito aos mortos”… De facto, sente-se que existe algo de errado ao apreciarmos uma fotografia como esta, pois ninguém tem o direito de perscrutar, de fazer turismo na morte de alguém que nem sequer se conhece. Nesta imagem invadimos mais do que uma paisagem tétrica, penetramos em almas. É uma espécie de violação de privacidade, trago um elemento biográfico, pessoal de uma história familiar para um espaço público, exponho aqui o término familiar de sujeitos com quem nunca me cruzei. A morte é só por si tema delicado, eticamente muito protegido por aqueles a quem diz respeito a morte de alguém. Esta fotografia é portanto prova de que, a nível fotográfico, a privacidade desapareceu, não existe qualquer objecto impossibilitado de ser fotografado.


Ao apreciarmos esta fotografia não conseguimos desligar dela a sensação de sinistro. E não deixa no entanto de agradar, o que prova o nosso gosto sombrio. Por ser uma fotografia de um jazigo pode motivar perguntas do género: porque é que isto foi fotografado? Qual o interesse do fotógrafo neste jazigo em particular? O que motivou o fotógrafo a deslocar-se a um cemitério e fotografar os mortos? Quando nos desprendemos das intenções do fotógrafo e consideramos o sujeito fotografado, as perguntas serão: que idade tem o jazigo? Quantas pessoas encerra? Terão morrido de quê? Ainda existirão familiares vivos? Será que alguém cá vem frequentemente? Pelas questões que levanta, que são prova do interesse que em nós desperta, esta fotografia ganha uma dimensão também ela relacionada com esta prática: a beleza do sublime, que se associa ao aspecto melancólico da fotografia.


A fotografia evoca melancolia através das suas imagens e é por isto que o objecto da fotografia se torna atractivo. Por ser uma fotografia de um jazigo, esta é sem dúvida uma foto romântica, e do romantismo tétrico não se dissocia a melancolia. O gosto romântico caracteriza-se pela estimação do decrépito, da morte, do místico e do sombrio. Não conseguimos achar esta fotografia horrível porque a fotografia só por si embeleza o que quer que seja fotografado.


A fotografia concede beleza à mais sinistra das coisas, torna coisas feias, ou que são vergonhosas de fotografar, como mortos, campas e jazigos, em algo sublime, belo. Encontramos sempre beleza nas fotografias: sendo o tema da morte (um retrato de família ou um retrato da morte?) esta fotografia não é excepção. A imagem lembra os cenários românticos pelo o jogo das sombras, a presença prenhe de simbolismo da cruz, a luz de fim de tarde, a imponência e dureza da pedra, evocando essa beleza romântica que nos advém do século XIX.


Normalmente, quando pensamos em fotografar alguém pensamos em fotografar momentos felizes, mas a banalização do acto fotográfico permite a exploração de inúmeros temas, que ao primeiro pensamento o senso comum não procura. Este retrato familiar, por ser a imagem de um jazigo, representa necessariamente momentos de tristeza na vida de alguém. Esta fotografia suporta uma grande quantidade de reflexões a propósito da biografia desta família, do próprio sujeito fotografado (um jazigo como retrato de uma família) da relação entre o fotógrafo e o acto de fotografar um jazigo, e com a filosofia existente na História da Fotografia.


A fotografia está relacionada com um momento que nunca mais se repete. Mas se atendermos a esta fotografia e à sua relação com o tempo, será que esta tertúlia familiar diferirá muito ao longo dos próximos anos? Para esta família, os momentos são basicamente iguais. Qualquer pessoa poderá repetir esta fotografia de família… No máximo, talvez exista alguma animação com umas flores novas ou mais um membro que chega para se juntar ao retrato.

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