segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

UM RASPANETE AMENINADO

THAT NIGHT FOLLOWS THE DAY
O que poderão ter a dizer-nos um grupo de fedelhos sobre a idade adulta? O que têm a ensinar-nos sobre o modo como os ensinamos? Será que vêem nas coisas algo mais para além de nós? Serão capazes de ter uma atitude tão eloquente que nos faça reflectir sobre nós mesmos, sobre aquilo que julgamos saber acerca do mundo, sobre a nossa vida, sobre o modo como nela nos relacionamos com aqueles que ainda há tão pouco tempo a ela chegaram? Etchells, um dos elementos do conceituado grupo artístico inglês Forced Entertainment, propõe que tiremos as nossas conclusões a propósito disto com o espectáculo que fez viajar até Portugal: That Night Follows Day.


Enquanto se aguarda que toda a gente se sente na sala de espectáculo, ouvimos em fundo sonoro crianças a brincar, sem no entanto as vermos. O palco foi transformado num ginásio escolar: espaldares ao fundo da cena, no chão as fitas coloridas que marcam os campos de jogo, ao cimo um grande quadro de escola primária onde serão projectadas as legendas em português (o espectáculo acontece em neerlandês). Há cadeiras espalhadas. Estamos no espaço de recreio. É aqui que acontece a acção. Subitamente, as vozes de crianças a que já estávamos habituados, calam-se. Entram os intérpretes: 16 indivíduos, com pouco mais de metro e meio alinham-se à boca de cena com ar sereno de quem sabe o que está a fazer. Estes pigmeus, crianças belgas entre os oito e os doze anos, não deixavam ainda suspeitar o raspanete que nos pregariam, a nós, os adultos, por sermos adultos. A sua bem-comportada organização de meninos de coro escondia ainda o conteúdo daquilo que nos viriam a dizer.


Começa então o sermão: com um discurso que se inicia em uníssono, o grupo de crianças desencadeia o rol de afirmações (que rapidamente passam a acusações) das coisas que os adultos lhes dizem, sobre como fazer, sobre porque fazer, sobre tudo e sobre nada: “Vocês alimentam-nos. Dão-nos banho. Vestem-nos. Cantam para nós. Observam-nos quando estamos a dormir. Fazem-nos promessas de que acham que não nos vamos lembrar. Contam-nos histórias com final feliz e histórias sem final feliz e histórias com um final que nem sequer chega a ser um final. Explicam-nos o que é o amor. Explicam-nos as diferentes causas da doença e as diferentes causas da guerra. Sussurram quando acham que não devemos ouvir.”


Todo o texto utilizado pelas crianças é um composto de frases soltas, sem uma aparente relação entre elas a não ser o facto de que todas se referirem sempre à relação que os adultos têm com as crianças. A estrutura do texto é sempre a mesma ao longo de todo o espectáculo, e as crianças expressam-no ora em momentos corais, ora a solo, tomando cada criança uma consideração sua sobre “os maiores”. O todo do texto constitui uma descrição infantilmente séria do modo como os adultos modelam, enquadram e definem o mundo em que eles habitam, das várias maneiras segundo as quais o mundo das crianças é determinado pelo o dos adultos.


A relação entre adultos e crianças articula-se através do texto. O mundo de que nos falam as crianças não é o mundo delas, é o mundo adulto que lhes queremos impingir. Isto justifica que as atitudes das crianças em palco sejam a de quem está francamente chateado, chegando por vezes a ser agressivo. As crianças dirigem-se directamente ao público, que sabe que é adulto, “Vocês, vocês”! Em grupo ou individualmente, expressando a sua indignação, revolta, ou incompreensão através das suas qualidades vocais, estas crianças não nos deixam esquecer que já atingimos a maioridade e que nos relacionamos com elas de modos que chegam mesmo a ser néscias. A atitude das crianças no espaço em que se encontram não deixa de ser paradoxal: estão num recreio, seria esperado que andassem aos saltos, a brincar, a jogar, a divertir-se. O recreio é talvez o sítio no mundo infantil onde podem ser totalmente crianças, sem que grandes constrangimentos lhes sejam impostos, especialmente pelos adultos. Mas em vez de aproveitarem esse espaço de diversão, este grupo de crianças surpreende-nos com considerações sérias numa atitude crescida, numa organização e serenidade que intriga o espectador.


As poucas variações cénicas do espectáculo (as disposições das crianças alteram apenas entre boca de cena e fundo de cena, numa organização linear) estendem o tempo de presença perante os adultos (entenda-se o público) fazendo com que aquilo que nos têm a dizer pareça repetitivo e interminável, tal como os raspanetes que em miúdos recebemos. Apesar de haver um momento de caos, que mais não é do que um verdadeiro momento de recreio em que as crianças são crianças, deixando a pose de responsabilidade para se divertirem “desorganizadamente”, depressa voltam ao composto da cena, para fechar o espectáculo do mesmo modo como o tinham iniciado: à boca de cena, sempre falando sobre nós a propósito deles. “Temos de nos ir arranjar”, é a última frase da peça, reservando assim talvez uma impossibilidade da nossa parte de conseguirmos considerar as crianças como algo mais do que um receptor de informações e ordens, um barro que insistimos em moldar segundo as nossas considerações.


Não é só pelo conteúdo do texto, ou pelo modo como este foi explorado pelas crianças e lançado sobre o espectador, que este espectáculo pode ser considerado um raspanete: estas crianças, excelentemente dirigidas por Tim Etchells, dão uma grande lição a qualquer um que ponha em causa a capacidade interpretativa de qualquer miúdo, de ser capaz de estar completamente sozinho (entenda-se sem nenhum adulto) em palco ao longo de mais de uma hora, de decorar uma sequência de texto extensa, movimentações e atitudes específicas e, claro está, suportar o olhar de um público pouco habituado a ver um grupo de crianças a actuar fora dos recitais escolares ou dos saraus familiares.


Estas crianças não brincam aos teatros, fazem teatro, com uma veracidade e qualidade de meter inveja a muitos grupos profissionais.

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