Ausência. É sempre ter falta de alguma coisa ou de alguém e hoje sinto a minha falta. Tenho saudades minhas. É um vazio que tem tomado conta de mim, como se estivesse há já muito tempo adormecida, de um sono do qual tenho dificuldade em acordar. Estou num viver narcoléptico, que me causa uma dor profunda de não conseguir viver melhor. Adormeço nas melhores partes dos dias. Há dias menos bons, hoje será, tem sido, já foi um deles. Sinto uma impotência crescente, nascente da cegueira que não consigo curar.
De uma relação que quero manter, de algo que quero mostrar, de um fracasso que já tive, que não quero voltar a ter, e que vejo que os outros não atingem.Ter fracassado é ter sido impotente. É ser dominado por uma impossibilidade, não conseguir ultrapassar as nossas próprias dificuldades. Sinto-me impotente quando o desenrolar das circunstâncias já não dependem de mim, para o bem e para o mal. É tão difícil explicar um fracasso. É tão difícil demonstrar um fracasso. Porque talvez seja do tipo de coisas que sublimamos, que inconscientemente apagamos das nossas memórias. Ninguém quer recuperar um fracasso para o que quer que seja. Mas todos querem recuperar do fracasso. E isso já é uma coisa diferente. Recuperar do fracasso é acelerar o processo de esquecimento.Essa impotência… mas como é que se mostra a impotência…
é mais fácil verbalizar, é muito mais fácil. Com palavras. É sempre mais fácil com as palavras. Mas também mais perigoso. As palavras lá ficam, para quem as quiser ler. Agora, depois, mais tarde… num minuto, durante duas horas, um dia inteiro. As palavras estão sempre lá. Mas a explicação, a demonstração daquilo que são… é sempre efémero. Foi agora, já passou, mesmo falando sobre ele, não consigo recuperar essa demonstração do que foi o meu fracasso, do que foi a minha dor, do que foi a minha cegueira. A surpresa do momento já não se mantém no que escrevem as palavras. As palavras...Vulnerabilidade vem do latim vulnus. Que quer dizer ferida.
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